
Nas tardes longas e quentes do norte de Minas minha avó se empenhava em me ensinar a fazer crochê. Suas mãos teciam verdadeiras rendas com uma linha fininha e uma agulha cuja ponta estava mais para cabeça de alfinete do que para ponta de agulha de crochê.
Eu, morrendo de preguiça, usava agulha grossa e linha grossa, tecendo uns bicos bem simples no tecido de saco alvejado para fazer panos de prato. Volta e meia ela me fazia desmanchar dizendo que o caseado estava muito largo.
Fiz alguns progressos e fui obrigada a colaborar nos sete metros de biquinho delicado e de linha fina que ela cismou de fazer para colocar numa anágua nova para mim. E a premiada com a anágua, reclamava que tecia, tecia horas e o serviço não rendia.
Numa dessas tardes ela me saiu com uma que, por mais que passe o tempo, não consigo me esquecer.
- É pra não render mesmo, pra demorar, pra quando você ficar viúva não ficar dando desfrute por aí.
Me deu uma vontade danada de rir só da idéia de vir a ser uma viúva e nem perguntei o que era desfrute. Judith,da cozinha, anunciava que os biscoitos fritos estavam prontos para o café do meio-dia.
Anos mais tarde vi a expressão “viúva desfrutável” num livro e só aí entendi o que ela queria dizer. Tinha uma outra expressão: “essa menina precisa aprender a bordar, costurar para criar assento.”
Certo é que me criei em meio a crochês, tricôs, bordados de avessos impecáveis e todos os artesanatos que minha mãe e ela experimentavam. Para dizer a verdade eu preferia ler. mas
criei gosto pelo artesanato. Não faço quase nada, atualmente, porque quebrei meu dedo mindinho, correndo atrás de uma galinha que teimava em comer o meu projeto de horta lá na curva do Saracura.
O computador entrou na minha vida na hora certa. Machuquei o joelho e tive que fazer uma cirurgia que não foi das mais bem sucedidas. Assim, estimulada pelo meu irmão, depois de umas aulinhas, comecei a fuçar aqui e ali, sob os risos e caçoadas de minha filha e de meu neto quando ameaçava jogar a “máquina” pelo terraço do meu nono andar (mais drástica de que o João Ubaldo Ribeiro que quis jogar o dele do quarto andar) Mas ela foi me conquistando e... Hoje passo boa parte do meu tempo na frente da telinha e, de uma certa forma, fazendo artesanato nos e-mails que envio para os amigos virtuais. Leio, ouço música e sei das novidades, bem quietinha no meu canto, sem “dar desfrute”.
Na curva do Saracura e neste espaço está um pouco da pessoa que é a
Mãe D’Água
Um comentário:
Nossa, ficou muito bom, tem que começar a divulgar agora.
Grande yaya, mostrando o talento pra maquina, quem dera eu saber metade disso ai.
Ficou muito bonito.
Beijao
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