terça-feira, 24 de junho de 2008

Retratos na Parede - Resíduos



(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.


(Resíduo)

De outros tempos...


Nas tardes longas e quentes do norte de Minas minha avó se empenhava em me ensinar a fazer crochê. Suas mãos teciam verdadeiras rendas com uma linha fininha e uma agulha cuja ponta estava mais para cabeça de alfinete do que para ponta de agulha de crochê.
Eu, morrendo de preguiça, usava agulha grossa e linha grossa, tecendo uns bicos bem simples no tecido de saco alvejado para fazer panos de prato. Volta e meia ela me fazia desmanchar dizendo que o caseado estava muito largo.
Fiz alguns progressos e fui obrigada a colaborar nos sete metros de biquinho delicado e de linha fina que ela cismou de fazer para colocar numa anágua nova para mim. E a premiada com a anágua, reclamava que tecia, tecia horas e o serviço não rendia.
Numa dessas tardes ela me saiu com uma que, por mais que passe o tempo, não consigo me esquecer.
- É pra não render mesmo, pra demorar, pra quando você ficar viúva não ficar dando desfrute por aí.
Me deu uma vontade danada de rir só da idéia de vir a ser uma viúva e nem perguntei o que era desfrute. Judith,da cozinha, anunciava que os biscoitos fritos estavam prontos para o café do meio-dia.
Anos mais tarde vi a expressão “viúva desfrutável” num livro e só aí entendi o que ela queria dizer. Tinha uma outra expressão: “essa menina precisa aprender a bordar, costurar para criar assento.”
Certo é que me criei em meio a crochês, tricôs, bordados de avessos impecáveis e todos os artesanatos que minha mãe e ela experimentavam. Para dizer a verdade eu preferia ler. mas
criei gosto pelo artesanato. Não faço quase nada, atualmente, porque quebrei meu dedo mindinho, correndo atrás de uma galinha que teimava em comer o meu projeto de horta lá na curva do Saracura.
O computador entrou na minha vida na hora certa. Machuquei o joelho e tive que fazer uma cirurgia que não foi das mais bem sucedidas. Assim, estimulada pelo meu irmão, depois de umas aulinhas, comecei a fuçar aqui e ali, sob os risos e caçoadas de minha filha e de meu neto quando ameaçava jogar a “máquina” pelo terraço do meu nono andar (mais drástica de que o João Ubaldo Ribeiro que quis jogar o dele do quarto andar) Mas ela foi me conquistando e... Hoje passo boa parte do meu tempo na frente da telinha e, de uma certa forma, fazendo artesanato nos e-mails que envio para os amigos virtuais. Leio, ouço música e sei das novidades, bem quietinha no meu canto, sem “dar desfrute”.
Na curva do Saracura e neste espaço está um pouco da pessoa que é a

Mãe D’Água